segunda-feira, 27 de junho de 2011

Seminário Estadual de Cineclubismo, Cinema e Educação

Dia 05 de julho - terça-feira 
Palestras com pesquisadores da área!!

E na parte sobre experiências, fui convidada a falar sobre a experiência da oficina de cinema da Escola da Ilha!! Vai ser bacana!!!

Confraternização - Turma Eco 2010

Quarta-feira, 22 de junho de 2011, tivemos nossa última aula de Linguagens e Mídias
E aí estão quase todos os colegas da Turma ECO 2011...

Kelly, Adriana, Ana, Ally, Gilson, Lauro
Mayra, Profª Dulce, Gabi
Paty e Tim
 
Não participei da primeira etapa da disciplina em abril, ministrada pela Profª Aracy, por estar viajando em lua de mel, mas a segunda etapa, conduzida pela Profª Dulce, se constituiu de seminários, onde todos os alunos apresentaram alguns livros da ementa da disciplina, articulados com outras leituras complementares. Foi bem produtivo e proveitoso!!

E finalmente no nosso último encontro, eu e meu colega Lauro, apresentamos "Cultura da convergência" de Henry Jenkins em tempo recorde de 1h30. Foi bem bacana!! 


Ao final, encerramos a aula com um lanche junino reforçado, com quentão, pipoca, cachorro-quente, pé de muleque, e eu levei uma nega-maluca no estilo "charge", com toques de bombom e amendoim! Estava uma delícia!!

Com este post, aproveito para incluir as fotos da confraternização de 2010, das disciplinas "Barthes e a Educação" e "Teorias da Educação" que também foram super especiais!!


sexta-feira, 17 de junho de 2011

"Arte-mídia" de Arlindo Machado

Li este livro semana passada, para a disciplina de "Linguagens e mídias" ministrada pela Profª Dulce, onde foi trabalhado no seminário "Arte e contracultura" de alguns colegas da disciplina (Ana, Rô, Gilson e Tim). O autor levanta várias questões interessantes para minha pesquisa, como a relação da arte com a mídia, da hibridização dos meios, entre outras relações, que compartilho aqui, através de passagens bem importantes do livro.

O livro é bem pequeno e fino, tem apenas 84 páginas, custa menos de R$15,00, e se divide em 3 partes, mais a introdução.


Arte-mídia: conceito para “designar formas de expressão artística que se apropriam de recursos tecnológicos das mídias e da indústria do entretenimento em geral, ou intervêm em seus canais de difusão, para propor alternativas qualitativas”. Compreende “as experiências de diálogo, colaboração e intervenção crítica nos meios de comunicação de massa” e “abrange também quaisquer experiências artísticas que utilizem os recursos tecnológicos recentemente desenvolvidos, sobretudo nos campos da eletrônica, da informática e da engenharia biológica.” (p.7) “Inclui também artes visuais e audiovisuais, literatura, música e artes performáticas”, além da “criação colaborativa baseada em redes, as intervenções em ambientes virtuais ou semivirtuais, a aplicação de recursos de hardware e software para a geração de obras interativas, probabilísticas, potenciais, acessíveis remotamente, etc”. “Engloba e extrapola expressões anteriores, como ‘arte&tecnologia’, ‘artes eletrônicas’, ‘arte-comunicação’, ‘poéticas tecnológicas’, etc. (p.8) (mídia-educação?!)

Arte e mídia: aproximações e distinções

“Mídia e arte. Que fazem eles juntos e que relação mantém entre si? Dizer arte-mídia significa sugerir que os produtos da mídia podem ser encarados como as formas de arte de nosso tempo ou, ao contrário, que a arte de nosso tempo busca de alguma forma interferir no circuito massivo das mídias? Em sua acepção própria, a arte-mídia é algo mais que a mera utilização de câmeras, computadores e sintetizadores na produção de arte, ou a simples inserção da arte em circuitos massivos como a televisão e a Internet. A questão mais complexa é saber de que maneira podem se combinar, se contaminar e se distinguir arte e mídia, instituições tão diferentes do ponto de vista das suas respectivas histórias, de seus sujeitos ou protagonistas e da inserção social de cada uma. O objetivo deste livro é buscar respostas a essa questão.” (p.8 e 9) (seria minha pesquisa uma forma de buscar também?!)

“A arte sempre foi produzida com os meios de seu tempo.” E assim como Bach e Stockhausen, que “buscavam extrair o máximo das possibilidades musicais de dois instrumentos recém-inventados e que davam forma à sensibilidade acústica de suas respectivas épocas”, outros artistas tem se esforçado em fazer o mesmo com os meios atuais. (p. 9)

Porque, o “artista do nosso tempo, recusaria o vídeo, o computador, a Internet, os programas de modelação, processamento e edição de imagem? Se toda arte é feita com os meios de seu tempo. As artes midiáticas representam a expressão mais avançada da criação artística atual e aquela que melhor exprime sensibilidades e saberes do homem do início do terceiro milênio.” (p.10)

A apropriação que a arte faz do aparato tecnológico contemporâneo “difere significativamente daquela feita por outros setores da sociedade, como a indústria de bens de consumo. Em geral, aparelhos, instrumentos e máquinas semióticas não são projetadas para a produção de arte.” São feitas para produção em larga escala, como o caso do fonógrafo, que desembocou na poderosa indústria fonográfica, mas nunca para a produção de objetos singulares, singelos e ‘sublimes’.” (p.10) (Será?! Mas algum artefato é? Não é justamente o artista que dá um novo contexto e sentido para os recursos disponíveis ao seu redor?!)

“A fotografia, o cinema, o vídeo e o computador foram também concebidos e desenvolvidos segundo os mesmos princípios de produtividade e racionalidade, no interior de ambientes industriais e dentro da mesma lógica de expansão capitalista. Mesmo os aplicativos explicitamente destinados à criação artística, como os de autoria em computação gráfica, hipermídia e vídeo digital, apenas formalizam um conjunto de procedimentos conhecidos, herdados de uma história da arte já assimilada e consagrada” (p.11) e colocados a disposição de “um usuário genérico, leigo e ‘descartável’, de modo a permitir a produtividade em larga escala e atender uma demanda de tipo industrial.” (p. 12)

“Existem, portanto, diferentes maneiras de se lidar com as máquinas semióticas cada vez mais disponíveis no mercado eletrônico. A perspectiva artística é certamente a mais desviante de todas, uma vez que ela se afasta em tal intensidade do projeto tecnológico originalmente imprimido às máquinas e programas que equivale a uma completa reinvenção dos meios.” (p.13)

“O que faz, portanto, um verdadeiro criador, em vez de simplesmente submeter-se às determinações de aparato técnico, é subverter continuamente a função da máquina ou do programa que ele utiliza, é manejá-los no sentido contrário ao de sua produtividade programada.” “É uma recusa sistemática de submeter-se à lógica dos instrumentos de trabalho, ou de cumprir o projeto industrial das máquinas semióticas, reinventando, em contrapartida, as suas funções e finalidades. Longe de se deixar escravizar por uma norma, por um modo estandardizado de comunicar, as obras realmente fundadoras na verdade reinventam a maneira de se apropriar de uma tecnologia.” (p.14 e 15)

Seriam então os vídeos dos alunos, maneiras de subverter as tecnologias? Não somente consumir, mas também produzir, através de seus celulares e máquinas fotográficas, sendo explorados por novas funções, resultando em vídeos que expressam idéias, histórias e sentidos. Seria subversão?

“As técnicas, os artifícios, os dispositivos de que se utiliza o artista para conceber, construir e exibir seus trabalhos não são apenas ferramentas inertes, nem mediações inocentes, indiferentes aos resultados, que se poderiam substituir pro quaisquer outras. Eles estão carregados de conceitos, eles têm uma história e derivam de condições produtivas bastante específicas. A arte-mídia, como qualquer arte fortemente determinada pela mediação técnica, coloca o artista diante do desafio permanente de, ao mesmo tempo em que se abre às formas de produzir do presente, contrapor-se também ao determinismo tecnológico, recusar o projeto industrial já embutido nas máquinas e aparelhos, evitando assim  que sua obra resulte simplesmente num endosso dos objetivos de produtividade da sociedade tecnológica.” “O artista busca se apropriar das tecnologias mecânicas, audiovisuais, eletrônicas e digitais numa perspectiva inovadora, fazendo-as trabalhar em benefício de suas idéias estéticas. O desafio da arte-mídia (ou mídia educação?!) não está, portanto, na mera apologia ingênua das atuais possibilidades de criação. A arte-mídia deve, pelo contrário, traçar uma diferença nítida entre o que é, de um lado, a produção industrial de estímulos agradáveis para as mídias de massa, e de outro, a busca de uma ética estética para uma era eletrônica” (p.16 e 17)

Porém, não seria importante este artista conhecer as regras clássicas? Ampliar seu repertório, para então transgredi-lo?!

“A videoarte talvez tenha sido um dos primeiros lugares onde essa consciência se constituiu de forma clara desde o início.” (p.17)

Mas não podemos esquecer, que muitas transgressões, como a estética videoclipe, por exemplo, tornam-se regras. Carrière diz que as transgressões no cinema, como toda moda, vem e vão! Nascem como novas e são apropriadas exaustivamente até se tornarem “velhas”.

Arlindo Machado comenta de vários artistas da videoarte, e que “em nosso tempo, a mídia está permanentemente presente ao redor do artista, despejando o seu fluxo contínuo de sedução audiovisual, convidando ao gozo do consumo universal e chamando para si o peso das decisões no plano político. É difícil imaginar que um artista sintonizado com o seu tempo não se sinta forçado a se posicionar com relação a isso tudo e a se perguntar que papel significante a arte pode ainda desempenhar nesse contexto. (p.22)

“Sabemos que a arte é um processo de constante mutação.” “O mundo das mídias, com sua ruidosa irrupção no século XX, tem afetado substancialmente o conceito e a prática da arte, transformando a criação artística no interior da sociedade midiática numa discussão bastante complexa.” “Com o cinema, por exemplo, os produtos da criação artística e da produção midiática não são mais facilmente distinguidos com clareza.” “Há controvérsias se ele seria uma arte ou um meio de comunicação de massa. Ora, ele é as duas coisas ao mesmo tempo, se não for ainda outras mais.” (p.23)

“Não há também nenhuma razão para esses produtos qualitativos da comunicação de massa não serem considerados verdadeiras obras criativas do nosso tempo, sejam elas vistas como arte ou não.” (p.25)

“Assim como o livro impresso, tão hostilizado nos seus primórdios, acabou por se revelar o lugar privilegiado da literatura, não há porque a televisão e a Internet não possa abrigar as formas de arte do nosso tempo.” (p.26)

“Talvez possamos com proveito aplicar à arte produzida na era das mídias o mesmo raciocínio que Walter Benjamin aplicou à fotografia e ao cinema: o problema não é saber se ainda cabe considerarmos ‘artísticos’ objetos e eventos tais como um programa de televisão, uma história em quadrinhos ou um show de banda de rock. O que importa é perceber que a existência mesma desses produtos, a sua proliferação, a sua implementação na vida social colocam em crise os conceitos tradicionais e anteriores ao fenômeno artístico, exigindo formulações mais adequadas à nova sensibilidade que agora emerge.” (p.26)

“Com as formas tradicionais de arte entrando em fase de esgotamento, a confluência da arte com a mídia (ou convergência, segundo Jenkins) representa um campo de possibilidades e de energia criativa que poderá resultar proximamente num salto no conceito e na prática tanto da arte quanto da mídia – se houver, é claro, inteligências e sensibilidades suficientes para extrair frutos dessa nova situação.” (p.27)

“Quem fazer arte hoje, com os meios de hoje, está obrigatoriamente enfrentando a todo momento a questão da mídia e do seu contexto, com seus constrangimentos de ordem institucional e econômica, com seus imperativos de dispersão e anonimato, bem como com seus atributos de alcance e influência. Trata-se de uma prática ao mesmo tempo secular e moderna, afirmativa e negativa, integrada e apocalíptica. Os públicos dessa nova arte são cada vez mais heterogêneos, não necessariamente especializados e nem sempre se dão conta de que o que estão vivenciando é uma experiência estética.” (p.29)

Tecnologia e Arte: como politizar o debate 

“As novas tecnologias, associadas ao processo de globalização, penetraram todos os espaços do planeta e interferiram na vida de todos os povos, até mesmo das populações mais isoladas e refratárias à modernização, como é o caso dos povos indígenas. (exemplo da vídeo-carta ikpeng)” (p. 32)

“Não há mais como ignorar o fato de que a conexão universal via Internet é um fato consolidado e sem retorno.” (p.33) Isso não quer dizer que tenha sido feito de maneira igualitária. Há ainda muita desigualdade social e digital ao redor do mundo, diz Machado.

“A aceleração tecnológica modulou também o ritmo de nossas vidas, exigindo atualizações cada vez mais rápidas, premiando os que se adaptam mais facilmente e descartando os que não conseguem acompanhar a velocidade das mudanças.” “E as novas tecnologias colocaram ainda em risco o meio ambiente em que vivemos, promovendo os cenários catastróficos que diariamente perturbam as páginas dos jornais”. (p.34)

“O navegante da rede, integrado ao corpo das interfaces, não é mais um mero espectador passivo, incapaz de interferir no fluxo das energias e idéias; pelo contrário, ele se multiplica pelos nós da rede e se distribui por toda parte, interagindo com outros participantes e constituindo assim uma espécie de consciência coletiva.” (p. 35) (cultura participativa e inteligência coletiva do Jenkins)

“Ou você está no interior da rede ou não está em parte alguma. E, se você está no interior da rede, você está em todos os lugares.” (Ascott apud Machado - p.36)

“A importação em larga escala de idéias e de modelos de ação de outras realidades socioeconômicas tem impedido o desenvolvimento entre nós de uma consciência alternativa relacionada às novas tecnologias.” “A crítica ainda não foi capaz, entre nós, de discutir as novas tecnologias em toda sua complexidade, limitada que está, muitas vezes, por uma tendência tecnófoba igualmente ingênua e importada de modelos apocalípticos europeus ou norte-americanos.” (p.37)
“Não temos critérios suficientemente maduros para avaliar a contribuição de um artista ou de uma equipe de realizadores.”

Flusser e a filosofia da caixa-preta – exprime um problema novo, na medida que “a fotografia foi a primeira a colocar, no surgimento de aparatos tecnológicos que se podem utilizar e deles tirar proveito, sem que o utilizador tenha a menor idéia do que se passa em suas entranhas.” “um desconhecimento que se transforma em atividade”. (p.45)

“Somos, cada vez mais, operadores de rótulos, apertadores de botões, “funcionários” das máquinas, lidamos com situações programadas sem nos darmos conta delas. Pensamos que podemos escolher e, como decorrência disso, nos imaginamos livres e criativos, mas nossa liberdade e capacidade de invenção estão restritas a um software, a um conjunto de possibilidades dadas a priori que não podemos dominar inteiramente.” (p. 46)

A filosofia de Flusser seria então uma forma de refletir e discutir sobre “as possibilidades de criação e liberdade numa sociedade cada vez mais programada e centralizada pela tecnologia.” (p. 46)

“Cada vez mais artistas lançam mão do computador para construir suas imagens, músicas, textos, ambientes; o vídeo é agora uma presença quase inevitável em qualquer instalação. A incorporação interativa das respostas do público se transformou numa norma (quando não numa mania) em qualquer proposta artística que se pretenda atualizada e em sintonia com o estágio atual da cultura.” (p.53)

Trata-se agora de identificar “onde a inserção de novas tecnologias nas artes está introduzindo uma diferença qualitativa ou produzindo acontecimentos verdadeiramente novos em termos de meios de expressão, conteúdos e formas de experiência.” (p.57)

Convergência e divergência das artes e dos meios

“Podemos imaginar o universo da cultura como um mar de acontecimentos ligados à esfera humana e as artes ou os meios de comunicação como círculos que delimitam campos específicos de acontecimentos dentro desse ‘mar’.” “Na prática, é impossível delimitar com exatidão o campo abrangido por um meio de comunicação ou uma forma de cultura, pois as suas bordas são imprecisas e se confundem com outros campos.” É o caso do cinema, onde ser “impossível falar dele sem a fotografia.” (p.56 e 57)

A especificidade de cada meio, “aquilo que o distingue como tal e que nos permite diferenciá-lo dos outros meios e dos outros fatos da cultura humana”, tem ficado menos evidente, pois a medida que nos aproximamos das “bordas e zonas de intersecção”, “os conceitos que os definem podem ser transportados de uns para outros e as práticas e tecnologias podem ser compartilhadas.” (p.59)

“Fotografia, cinema, televisão e vídeo, apesar de serem bastante próximos em muitos aspectos, foram durante muito tempo, pensados e praticados de forma independente, por gente diferente, e esses grupos quase nunca se comunicavam ou trocavam experiências.” (p.63), porém nas “sociedades humanas, uma ênfase exagerada nas identidades isoladas podem levar à intolerância e à guerra entre culturas, enquanto os processos de hibridização podem favorecer uma convivêcia mais pacífica entre as diferenças”. (p.64)

Se considerarmos o cinema, enquanto “escrita do movimento”, incluindo todas as formas de expressão baseadas na imagem em movimento, “televisão e vídeo também passariam a ser cinema”. E pensando dessa maneira, o cinema encontraria uma vitalidade nova, que pode não apenas evitar o processo de fossilização, como também garantir sua hegemonia perante as demais formas de cultura. Se antes no passado, teatro de sombras, agora com este novo corte e contexto, o cinema expandido se tornaria audiovisual.

“Já não se pode mais determinar a natureza de cada um de seus elementos constitutivos, tamanha é a mistura, sobreposição, o empilhamento de procedimentos diversos,sejam eles antigos ou modernos, sofisticados ou elementares, tecnológicos ou artesanais.” (p.70)

E diante dessa forma múltipla de expressão, surgem novos produtos, com uma “nova gramática”, que depende também de uma “nova leitura” por parte do sujeito receptor. (p.75)

“Os novos processos imagéticos despejam seu fluxo de imagens e sons de forma simultânea, isso exige, da parte do receptor, reflexos rápidos para captar todas (ou parte delas) as conexões formuladas, numa velocidade que pode mesmo parecer estonteante a um ‘leitor’ mais conservador, não familiarizado com as formas expressivas da contemporaneidade.” (p.76)

Não se pode esquecer, que a “hibridização produz inovação e abanco, mas também relações de desigualdade e assimetrias entre os fatos da cultura que ela agrega.” (p.77)

“Além disso, as constantes fusões e mudanças tecnológicas impedem que novas gerações possam ter tempo suficiente para amadurecer o domínio de um meio ou técnica, tornando os novos produtos necessariamente mais superficiais e de fôlego mais curto. Nos tempos da divergência e da especificidade, um cineasta levava muito tempo para chegar à direção, passando pro um longo processo de amadurecimento como assistente de direção e diretor de curtas-metragens. Hoje, uma nova tecnologia ou numa nova mídia não dura mais que cinco ou dez anos, impossibilitando portando o amadurecimento profissional, a constituição de uma linguagem suficientemente desenvolvida, a destilação de uma estética e a formação de um acervo de obras representativas. Às vezes, o hibridismo podem até mesmo dar expressão a algum tipo de esquizofrenia, como acontece nos ambientes computacionais, em que a possibilidade de acesso às mais variadas fontes e formatos digitais e a facilidade de fusão de todas essas fontes na tela do computador fazem com que muitos realizadores se sintam quase constrangidos a juntar tudo, produzindo resultados que estão mais para a pirotecnia de efeitos do que para a consistência estética e comunicativa do produto”. (caso dos filmes atuais...)

“A hibridização e a convergência dos meios são processos de intersecção, de transações e de diálogo, implicam movimentos de trânsito e provisoriedade, implicam também as tensões dos elementos híbridos convergidos, partes que se desgarram e não chegam a fundir-se completamente.” (p.78) 

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Como complemento (e ótima síntese) sugiro a apresentação no prezi do colega Gilson.

Era uma vez uma proficiência...

Hoje de tarde fiz meu primeiro teste de proficiência...comprovação obrigatória no mestrado!
Eu já deveria ter feito, mas me esqueci completamente e agora fui obrigada, mesmo distante das aulas de inglês há uns 3 meses!

Foram 2 horas de prova! 

Eram 3 textos curtinhos (até 10 linhas):

- O 1º falava sobre uma descoberta científica de um gene defeituoso que afeta o hormônio da tireóide e pode estar relacionado à hiperatividade. 

Neste texto caiu tradução e interpretação. 3 trechos para traduzir e 1 questão para assinalar do que se tratava o texto (0,5) e 1 para responder um assunto em relação ao texto. 

- O 2º texto falava sobre o teste de QI e sobre seu funcionamento na teoria, mas sua ineficiência na prática, pois destacava a importância de se considerar o viés cultural dos aplicadores de testes.

Neste texto caíram 3 questões. 1 sugerindo um título e uma justificativa para tal (1,5) e 2 para responder questões do texto.

- O 3º texto falava sobre funcionamento cerebral e sua relação com estímulo e aprendizagem. Havia apenas 1 questão perguntando sobre este assunto.

Não achei difícil, mas também não foi fácil. Usei bastante o dicionário e respondi todas as questões em inglês, mesmo descobrindo que podiam ser respondidas em português.

Porque resolvi dividir isto aqui?! Porque estou ansiosa pelo resultado e para aliviar as angústias de quem nunca fez esta prova! =)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Nada do que foi será de novo, do jeito que já foi um dia...

Falando de pós-modernidade....
Falando de multiplicidade, múltiplas verdades, flexibilidade...
Movimento humano...em espiral...apego e desapego...
Formas de ver...de saber...de entender e expressar!
Leitores-autores....

"Como Uma Onda" (Lulu Santos)
Composição : Lulu Santos / Nelson Motta
 
"Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará



A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito


Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo


Tudo muda o tempo todo
No mundo


Não adianta fugir...
Nem mentir
Pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora


Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar..."

terça-feira, 14 de junho de 2011

5º Festival Internacional de Teatro de animação - Keskusteluja

Keskusteluja


Sinopse

Keskusteluja, é a mais recente parceria do malabarista Ville Walo e o mágico Kalle Hakkarainen, é uma obra desafiadora do novo circo experimental que contempla a comunicação, combinando projeções de cinema e vídeo resultando em imagens impressionantes. Surrealismo e experimentalismo são as palavras chaves essenciais para descrever este espetáculo.

"Keskusteluja foca em temas da comunicação e na escassez dela. A performance circense e as projeções de vídeo também se comunicam com a música em vários tons, composta por Kimmo Pohjonen / Samuli Kosminen Kluster.

A força da perfomance visual reflete o curso do tempo. Através de projeções móveis na superfície, a coreografia da arte circense cresce como uma coreografia de palco inteiro. Imagens de um antigo filme mudo são combinadas com sequências de vídeos modernos. Niveís de tempo e realidade são entrelaçados e mixados. Identidade e comunicação prolongadas por um bom tempo, como as performances comuns dos dias atuais, encontrando um mundo visual que foi selecionado e modificado de um filme dos anos 20."
(traduzi do original em inglês do site oficial)

Grupo: WHS - Ville Walo e Kalle Hakkarainen (Finlândia)
Duração: 65 minutos
Faixa etária: a partir de 14 anos

Ficha técnica

Autor: criação coletiva
Intérpretes: Ville Walo e Kalle Hakkarainen
Música: Kimmo Pohjonen e Samuli Kosminen / Kluster.
Figurinos e cenários: Anne Jämsä
Desenho de luz: Marianne Lagus
Operador de Luz: Palmu Ainu
Sound design: Heikki Iso-Ahola
Operador de som: Pehrsson Joonas
Vídeo: Kalle Hakkarainen.

Site: http://w-h-s.fi/performances/keskusteluja/

Malabarismos, projeções e fragmentos.
(ou minhas impressões sobre o espetáculo)

Apresentações experimentais não são o meu forte, mas desde que iniciei o mestrado, meus gostos tem se desarticulado. Músicas, filmes, artes plásticas e teatro tem ganhado novo significado. Abandonei velhos hábitos e adquiri novos. Não por escolha. Pela natureza das leituras densas. 

Tenho feito descobertas. Acho que era meio cega! Sinto que ao ler textos difíceis, alguma porta se abre para o sublime. Olhar sensível, delicadeza, algo de visível no banal. O invísivel parece agora tão visível! É como aprender a brincar uma nova brincadeira...quase sem regras!

Depois de uma metade-aula desgastante (conceitos são frágeis e movediços), fomos todos para o 5º FITA para assistir a uma performance experimental. Fui receosa. Medrosa. Essas coisas me eram desgostosas. E o inesperado se revelou para mim. O desconexo me agradou!


O palco está escuro. No centro, apenas uma mesa redonda pequena e um telefone “antigo”.
Dois homens entram. Um senta apático e o outro, malabarista, brinca um uma bola e abre um livro.
A bola tem um rostinho esquelético simpático, que se completa com um corpinho dentro do livro. No brincar com o livro, movimento. Os bracinhos abrem e fecham. Bonequinho simpático, alegre e brincalhão. Tão vivo! Seria a “senhora” morte dos livros?! Meio fora, meio dentro. Indeciso!

O cenário móvel se levanta. Uma sala de televisão?
O apático recebe projeção. Seu rosto se desfigura. Perda de identidade?
Mistura entre ficção e realidade?! Espectador passivo? Real e virtual se confundindo?

O malabarista reaparece. Mais de uma vez.
Equilibra seu bloquinho e caneta. Rabisca.
Seria um meio de comunicação?!
Tenta equilibrar os objetos e contorna a mão. Seria uma expressão?
Contorna pés e passos. Sempre atarefado.
Descarta uma idéia. Informação descartável. Recomeça.
O homem apático reage. Recolhe o papel-idéia. Teria ficado ativo?

Malabarismos da vida. Telefone e bolas, bolas que significam.
Amores! Família! Amigos! Compromissos! Trabalho! Filhos!
Tão subjetivo! O malabarista se sufoca. As letrinhas pipocam.
Informação, informação, informação.
Nem dá tempo de processar. O malabarista se esgota!

O apático interage com um papelão. Papelão-televisão.
Bebe a água “virtual”. Acredita! Real e virtual se confundem!
Seus passos são guiados. Cuidado! Equilíbrio!
Seria necessário moldar-se às representações?!
Preencher estereótipos? Corresponder expectativas?
Os meios nos guiam? Passos sincronizados, cronometrados, precisos.
Há espaço para improviso?
Cenário-chão. Móvel-imóvel. Projeções do passado no presente.

Surge o homem-fragmento. Caixinhas separadas.
Cabeça, corpo e pés. Homem e mulher.
Numa dança brincalhona. Aprisionados no estático.
Surge o homem-fragmento sem cabeça. Corpo desarticulado.
Corpo sem valor? Substituível? Desmontável?
Seria o homem virtual?! Não há cabeça, só corpo?

Os sons são fortes e sombrios. Metálicos. Linhas cruzadas?
Freqüência sonora misturada?

Os aplausos são tímidos. Salão meio vazio.
Amor e ódio. Alguns adoram, outros não entendem.
Como não enxergar o invisível?!
Sentido somos nós que damos! Que bom!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

“As revoluções do capitalismo: a política no império” de Maurízio Lazzarato


Algumas impressões sobre as discussões dos Capítulos 1 e 2....

Desconforto na maneira de sentir...

“A distribuição dos desejos mudou”
“Um outro mundo é possível.”

“É preciso que a sociedade seja capaz de estabelecer agenciamentos coletivos que correspondam à nova subjetividade, de tal maneira que ela queira a transformação.”

“A constituição do mundo é pensada como produção, como fazer...” Vida objetiva.

“O mundo é virtual, uma multiplicidade de relações, de acontecimentos que se expressam nos agenciamentos coletivos de enunciação (nas almas) e criam o possível.” (Deleuze p. 17)

“Apaixonamo-nos menos por uma pessoa do que pelo mundo de possíveis que ela carrega!” (Deleuze)

Profº Leandro: Há um novo sentimento em relação com o mundo, onde palavras não dão conta de responder. O autor diz que para entender é preciso que esse sentimento, esse outro mundo possível, possa se efetuar...

Não encontrar uma solução, mas um possível...caminho possível...

Como ler de outra forma que não seja dual?
É preciso ler de uma forma atual...

Expressão/emancipação X Formalização de conteúdos/objetos
Ensaio                                X Artigo – texto acadêmico

“Sempre se diz de algum lugar...”

“Quando a palavra não dá conta...criação de um mundo possível!”

“Tudo muda o tempo todo...”

Vida sustentável como algo capturado pelo capital/mercado...

Pensar resistências e fugas....

quinta-feira, 9 de junho de 2011

"Tudo bem" de Lulu Santos

"Já não tenho dedos pra contar
De quantos barrancos despenquei
E quantas pedras me atiraram
Ou quantas atirei

Tanta farpa tanta mentira
Tanta falta do que dizer
Nem sempre é "so easy" se viver

Hoje eu não consigo mais me lembrar
De quantas janelas me atirei
E quanto rastro de incompreensão
Eu já deixei

Tantos bons quanto maus motivos
Tantas vezes desilusão
Quase nunca a vida é um balão

Mas o teu amor me cura
De uma loucura qualquer
É encostar no seu peito
E se isso for algum defeito
Por mim tudo bem. Tudo bem!

Já não tenho dedos pra contar
De quantas janelas me atirei
E quanto rastro de incompreensão
Eu já deixei

Tantos bons quanto maus motivos
Tantas vezes desilusão
Quase nunca a vida é um balão

Mas o teu amor me cura
De uma loucura qualquer
É encostar no seu peito
E se isso for algum defeito
Por mim tudo bem
Tudo bem, tudo bem!"

Entre altos e baixos, ao meu lado sempre está meu eterno amor e companheiro!
Basta repousar no seu ombro e me aconchegar nos seus braços, que fica tudo bem!

Um monstro de 3 (ou mais ) cabeças....



Fazer mestrado é fazer malabarismos!! (multimalabarimos talvez!)


Se em um dia a gente se dedica a ler e fazer sínteses para uma posterior escrita...a casa, o marido, as amizades, família, trabalho, alunos, alimentação e atividade física e todo resto ficam de lado!

Se um dia me dou ao luxo de ver um filme, namorar, encontrar uma amiga ou apenas zapear na TV, a culpa me consome por dentro, porque eu deveria estar lendo...

Se eu resolvo me dedicar ao casamento, fazendo uma comidinha gostosa, lavar roupa ou cuidar da casa, todo o resto fica de fora...ou seja...NUNCA me sinto completa e eficiente o suficiente!

Sempre há algo ou alguém que fica de lado...até EU me deixo de lado muitas vezes!

Por isso, mestrado é fazer malabarismos físicos, mentais e sociais.
É ler livros complexos, checar e-mails, cuidar do bolo no forno, estender a roupa, conversar pelo telefone com uma amiga, fazer um cafune no marido, comer andando, postar alguma bobeira no blog, entre inúmeras multitarefas, TUDO ao mesmo tempo!

É não ter muito tempo de terminar uma leitura pra começar outra, já se começa a ler tudo junto!
E a leitura vicia...quando um livro acaba, devorado e rabiscado, outro já está na fila ansioso....
E é ainda ter que conciliar tudo isso com trabalho, compromissos profissionais, eventos extras e disciplinas obrigatórias...Lendo coisas com e sem relação com a própria pesquisa...

Paciência, tolerância, auto-controle são necessários! Extremamente!!

Fazer mestrado é desejar um dia com mais de 24 horas, semanas bem mais longas, meses mais largos e ao mesmo tempo, sentir tudo isso escorrendo pelas mãos...o tempo voa...e a vida vai junto!!!

É não ter nem espaço pra ficar doente, chateado ou triste...ou talvez nem pra fazer aniversário, casar e comemorar qualquer vitória....a alegria ou tristeza está sempre acompanhada da culpa de como se aproveita o tempo....tempo precioso....demais!!

Mas parece que estou reclamando?! Talvez....mas reclamo com prazer!
Prazer de quem escolheu essa vida turbulenta e atarefada....porque "mente vazia é oficina do diabo"! (ditado popular?!)

A sede do conhecimento é gigante e insaciável, mas nem por isso me faz desistir...e descobri que quanto mais eu sei, mais quero saber e tenho plena consciência que essa busca será eterna!

Mas o divertido não é a descoberta..é a busca! Não o resultado, mas o processo!
E o sucesso é consequência de uma busca apaixonada, determinada, desequilibrada também!

Há dias em que dá vontade de jogar tudo pro alto, mas há muitos dias de delicadeza....onde ao ouvir uma música gostosa ou o próprio silêncio, consigo pronunciar um sincero "Obrigada!"

Pra mim, pra Deus, pro cara lá de cima ou pra qualquer coisa que esteja ou não em algum lugar, apenas pela necessidade de agradecer para o "nada", o vazio que "não" sinto.

É bom demais estar apaixonada e se sentir tão produtiva!!
Apaixonada não só pelo marido, amizades e família,  mas principalmente pela vida, pela pesquisa, pela profissão, pelo conhecimento e pelas imprevisíveis e deliciosas descobertas! E também pelo simples prazer da experiência....

"Viver a vida por ela mesma!" diria Freinet!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

"A cultura da convergência" de Henry Jenkins

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O livro se divide em 6 capítulos com uma rica introdução, posfácio e glossário. É completamente atual e referência para diversos segmentos do mercado e da pesquisa acadêmica. O autor estabelece relações entre conceitos contemporâneos com produtos culturais de mercado super conhecidos, como a franquia Matrix, Harry Potter, realitys shows Survivor e American Idol, além de falar do Photoshop e youtube, entre outros exemplos em textos extras.



O livro fala sobre o estado atual das mídias no mundo hoje. Mudanças ocorreram e continuam ocorrendo constantemente. É preciso compreender uma nova língua sobre este assunto. O autor tem o objetivo de “ajudar pessoas comuns a entender como a convergência vem impactando as mídias que elas consomem, e ao mesmo tempo, ajudar líderes da indústria e legisladores a entender a perspectiva do consumidor a respeito dessas transformações.” Ele pretende “descrever algumas das formas pelas quais o pensamento convergente está remodelando a cultura popular americana, e em particular, como está impactando a relação entre públicos, produtores e conteúdos de mídia” (p.39) “As velhas mídias não morreram. Nossa relação com elas é que morreu. Estamos numa época de grandes transformações, e todos nós temos três opções: temê-las, ignorá-las ou aceitá-las.” 

“A tarefa não é tanto ver o que ninguém viu ainda, mas pensar o que ninguém pensou sobre o algo que todos veem!” (Arthur Schopenhauer – p. 16)

“Os produtores de mídias só encontrarão a solução de seus problemas atuais readequando o relacionamento com seus consumidores. O público, que ganhou poder com as novas tecnologias e vem ocupando um espaço na intersecção entre velhos e os novos meios de comunicação, está exigindo o direito de participar intimamente da cultura!” (espectador-produtor; leitor-autor; passivo-ativo – p.53)

Ele traz 3 conceitos-chaves: 

Convergência dos meios de comunicação - “Fluxo de conteúdos através de múltiplas plataformas de mídias, à cooperação dos públicos pelos meios de comunicação, que vão a quase qualquer parte em busca de experiências de entretenimento que desejam”. Envolve “transformações tecnológicas, mercadológicas, culturais e sociais.”

Cultura participativa - Participantes interagindo num novo conjunto de regras. Alguns consumidores tem mais habilidade em participar que outros. (cabe aqui ampliar esse número? Aumentar o número de espectadores com habilidades?!) “O consumo tornou-se um processo coletivo.”

Inteligência coletiva - “Nenhum de nós pode saber tudo, cada um de nós sabe alguma coisa; e podemos juntar as peças, se associarmos nossos recursos e unirmos nossas habilidades!” (inspirado em Pierre Levy – H.J. – p. 30)

“Artistas criativos encontrando novas formas de contar histórias e educadores conhecendo comunidades informais de aprendizagem!” (p.39)

Capítulo 1 – "Survivor" – fenômeno dos realitys shows - 

 Inteligência coletiva na prática (p.48)

Spoilers – grupo de fãs, consumidores ativos que reúnem seus conhecimentos para tentar desvendar os mistérios e segredos do programa antes de ir ao ar; reúnem e processam informações e por isso são consideradas comunidades do conhecimento (conceito de Pierre Levy)

Comunidades do conhecimento – formam-se em torno de interesses intelectuais mútuos; seus membros trabalham juntos para forjar novos conhecimentos. (porque forjar?!) Estimulam o membro individual a buscar novas informações para o bem comum.

Capítulo 2 – "American Idol" e economia afetiva

Economia afetiva (interessante para estudos de recepção): representa uma “tentativa de atualizar-se com os estudos culturais feitos nas últimas décadas sobre comunidades de fãs e o envolvimento dos espectadores.” (p.96) “O trabalho dos estudos culturais procurava entender o consumo de mídia do ponto de vista do fã, articulando desejos, fantasias. O novo discurso de marketing procura moldar os desejos dos consumidores para direcionar as decisões de compra.” Refere-se a uma nova teoria de markenting. Implicações positivas e negativas. Anunciantes exploram a inteligência coletiva, mas as direciona para seus próprios fins. Consumidores são ativos e influentes, formam sua estrutura coletiva de barganha e desafiam decisões corporativas. (p.99) 

Capítulo 3 – "Matrix" como narrativa transmídia

“Arte da criação de um universo!” (p.49) e universos que podem ser explorados pelos consumidores! (p.161)

“Nunca uma franquia exigiu tanto dos consumidores” e se antes gerações se debatiam para entender algum filme de arte europeu, um filme independente, Cult ou experimental, agora experimentam essa sensação numa franquia que reúne 3 filmes (início em 1999), 2 games e 1 projeto com curtas de animação para contar uma história complexa, cheia de metáforas, alusões e mitologias. São intermináveis as referências do filme e por isso, é tão difícil decifrá-lo por completo! Cada pessoa avalia a partir de seu repertório e sendo o do filme, vasto, fica difícil haver consenso.


Narrativa transmídia – Cada meio faz o que faz de melhor ao introduzir história em filmes, HQs, romances, games, parques, etc. 

“Não temos ainda critérios estéticos bons para avaliar obras que se desenvolvem através de múltiplas mídias!” Houve poucas manifestações para os produtores de mídia “agirem com certeza sobre quais seriam os melhores usos desse novo modo de narrativa, ou para críticos e consumidores saberem como falar, sobre o que funciona ou não nessas franquias”. (p.139)

Capítulo 4 – "Star Wars" e cultura participativa

Fãs que prolongam sua experiência através de fóruns, vídeos amadores, etc.
Discute a indústria que luta pela propriedade intelectual, mas tende a se abrir com restrições. Permite participação dentro de regras rígidas.

Faz distinção entre interatividade e participação. (p. 189)

Capítulo 5 – "Harry Potter"– política da participação 

Para educadores e pesquisadores da área, este é o capítulo mais importante e essencial!!
Meu resumo é bem maior, mas coloquei aqui algumas passagens principais:

“Consumidores estão aplicando habilidades aprendidas como fãs e gamers no trabalho, escola e na política” (p.51)

“De que habilidades as crianças precisam para se tornar participantes plenos da cultura da convergência? A capacidade de unir seu conhecimento ao de outros numa empreitada coletiva (spoiler), compartilhar e comparar sistemas de valores por meio da avaliação de dramas éticos (fofoca, reality show), capacidade de formar conexões entre pedaços espalhados de informação (Matrix), expressar suas interpretações e sentimentos em relação a ficções populares por meio de sua própria cultura tradicional (Guerra nas estrelas) e a capacidade de circular suas criações através da internet, para que possam compartilhar com outros (cinema de fã) e por fim, a brincadeira de interpretar papéis (Harry Potter) como meio de explorar um mundo ficcional e como meio de desenvolver uma compreensão mais rica de si mesmo e da cultura à sua volta.” (p.248‐249) Esse é um domínio intelectual que só seria possível através de uma participação ativa.

“Não está claro se os sucessos dos espaços de afinidades podem ser copiados pela simples incorporação de atividades semelhantes na sala de aula. As escolas impõem uma hierarquia fixa de liderança (professor‐aluno) e possuem menos flexibilidade para apoiar escritores em estágios diferentes de escrita (e de aprendizado em geral).” Eles possuem mais liberdade sozinhos, quando não há os limites impostos pelas escolas. Os adolescentes até podem receber críticas severas na web, mas por decisão própria e enfrentando as conseqüências. (p.258)

“As crianças estão lendo livros e descobrindo que há mais coisas além da escola. Sua imaginação.” (p.271)

“Restringir a liberdade pode incitar a curiosidade e a rebeldia, levando aquele que se pretende proteger a tentar ultrapassar a barreira protetora, para ver o que está se perdendo. Mesmo se fosse possível manter as crianças longe de qualquer influência, isso as impediria de enfrentar situações que poderiam desenvolver maturidade para evitar perigos sozinhas.” (p.276)

“Ao tratarmos de pedagogia midiática, não podemos mais imaginá‐las como um processo em que adultos ensinam e crianças aprendem. Devemos interpretá‐la como um espaço cada vez mais amplo, onde as crianças ensinam umas às outras e onde, se abrissem os olhos, os adultos poderiam aprender muito.” (p.284)

Capítulo 6 – Photoshop?! - Cultura popular para cultura pública

Para falar da nova relação entre política e cultura popular, neste capítulo, o autor coloca como as manipulações de imagens e vídeos produzidas por eleitores, influenciaram as eleições de 2004 nos EUA e se tornaram uma tendência no ambiente político. (diversão séria, paródia, semelhança com charge)

“Neste momento, as pessoas estão aprendendo a participar de tais culturas do conhecimento fora de qualquer ambiente educacional.” “Muitas escolas permanecem abertamente hostis a essas experiências e continuam a promover solucionadores de problemas autônomos e aprendizes independentes. Na escola, colaboração não autorizada é cola.” “Precisamos pensar nos objetivos da educação midiática, para que os jovens possam ir a ser produtores e participantes culturais, e não apenas consumidores, críticos ou não. Para isso, educação midiática para adultos, também é necessária!” “Os consumidores terão mais poder na cultura da convergência,mas somente se reconhecerem e utilizarem este poder tanto como consumidores quanto como cidadãos, plenos da participação da nossa cultura.” (p.343)

“A atual transformação das mídias está provocando mudanças no modo como instituições cruciais operam (escolas?). Todos dos dias, vemos sinais de que práticas antigas estão sujeitas à mudança.” “Devemos continuar a fazer perguntas inquisitivas sobre práticas e instituições que as estão substituindo e estar abertos às dimensões éticas pelas quais estamos gerando conhecimento, produzindo culturas e nos envolvendo juntos na política.” (p.369)

Pósfacio: reflexões sobre política na era do youtube

“O surgimento da rede de computadores e as práticas sociais que cresceram ao seu redor expandiram a capacidade do cidadão médio de expressar suas ideias, fazê‐las circular diante de um público maior e compartilhar informações, na esperança de transformar nossa sociedade. Para isso, entretanto, temos de aplicar habilidades que adquirimos através de nossas brincadeiras com a cultura popular e dirigi‐las para os desafios da democracia participativa.” (p.346)

“O Youtube representa o encontro entre uma série de comunidades alternativas diversas, cada uma delas produzindo mídia independente há algum tempo, mas agora reunidas por esse portal compartilhado. Ao fornecer um canal de distribuição de conteúdo de mídia amador e semiprofissional, o Youtube estimula novas atividades de expressão – seja através de eventos como os debates da CNN/YouTube, seja em suas operações cotidianas. Ter um site compartilhado significa que essas produções obtêm uma visibilidade muito maior do que teriam se fossem distribuídas por portais separados e isolados”. Além disso, “funciona como um arquivo de mídia onde curadores amadores esquadrinham o ambiente à procura de conteúdos significativos, trazendo‐os a um público maior (por meios legais e ilegais). Colecionadores estão compartilhando material antigo, fãs estão remixando conteúdos contemporâneos; e todo mundo tem capacidade de congelar um momento do “fluxo” das mídias de massa para tentar concentrar a atenção no que acabou de acontecer. E por fim, o Youtube funciona em relação a uma série de redes sociais, e seu conteúdo se espalha em blogs, mensagens, publicações e afins. Poderia ser descrito como “mídia espalhável”, que significa permitir falar sobre importância de distribuição na criação de valor e reformulação de
sentido dentro da cultura do Youtube”.“Ele é um ambiente de participação que acontece em três níveis diferentes: produção, seleção e distribuição., Foi o primeiro a unir estas três funções numa única plataforma e a direcionar tanta atenção ao papel das pessoas comuns nesta paisagem transformada pela mídia”. (p.348 – 349)

“Não se pode produzir uma cultura nova a partir do nada. Estamos, hoje, como seres culturais, ocupando um conjunto de símbolos comuns e histórias que são fortemente baseadas nos produtos do período industrial. Se formos produzir nossa própria cultura, apresentando‐a de forma legível, e produzi‐la para uma nova plataforma que atenda as nossas necessidades e conversações de hoje, devemos encontrar um modo de recortar, colar e remixar a cultura atual.” (p.356)
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Estes são alguns modestos apontamentos de um livro de mais de 400 páginas, que considerei importantes ressaltar aqui no espaço do blog. O resumo original tem 40 páginas e aqui ele ficou ainda mais reduzido para não ficar cansativo. São vários exemplos e abordagens que já dão uma boa margem do que se trata o livro!!! Leitura obrigatória para pesquisadores do assunto!!

"Pedagogia do bom-senso" de Célestin Freinet

"Não se obriga um cavalo que não tem sede a beber!" 

 A demanda de leitura do mestrado me consome bastante tempo, mas finalmente consegui destacar todas as passagens importantes de uma pedagogia, presente neste livro, que considero fundamental.São passagens belíssimas e inspiradoras para qualquer pessoa apaixonada, que se proponha a educar!

Reforço que meu trabalho no momento não é articular estas passagens em outros contextos ou com minha pesquisa, mas somente destacá-las, para futuramente usá-las em citações e articulações, na escrita da minha pesquisa.

Compartilho no blog e na web, por acreditar numa "cultura participativa" e "inteligência coletiva", onde os usuários podem trocar informações e conhecimento, numa troca produtiva e mútua!


“Minha longa experiência dos homens simples, das crianças e dos animais persuadiu-me de que as leis da vida são gerais, naturais e válidas para todos os seres.” (p.1)

“O cão tem que caçar para se formar!” (p.5)

“O cão novo será treinado em companhia de cães excelentes, tendo apenas que seguir o exemplo deles.” (p.6)

“Nunca se deve bater nos mais novos. Deixe-os ou faça com que sejam castigados por outra pessoa, se necessário; mas nunca será pelo medo que você alcançará seus fins.” (p.6)

“O investigador de gênio é sempre aquele que caminha na direção da simplicidade e da vida.” (p.8)

“A verdade é que nossos mestres e os seus servidores nunca têm interesse em que nós descubramos as leis claras da vida”. (p.9)

“A educação não é uma fórmula e escola, mas sim uma obra de vida!” (p.9)

“É já na semente, ou no broto, que o jardineiro prudente cuida e prepara o fruto que virá. Se esse fruto é doente, é porque a própria árvore que o gerou estava enferma ou degenerada. (sobre os pais?!) Não é do fruto que se deve tratar, mas da vida que o produziu. O fruto será o que fizeram dele o solo, a raiz, o ar e a folha. Deles é que devemos cuidar, se quisermos enriquecer e garantir a colheita.” (p.10)

“Os seus alunos decoram a tabuada num mundo que será amanhã, o da máquina de calcular!” (p.13)

Freinet diz que existem professores que orientam alunos a estudar e fazer as lições para se tornarem “homens”, mas argumenta de homens que progrediram sem ajuda da escola. “Triunfou devido a outras virtudes que a escola não soube descobrir nem cultivar!”. (p.14)

“É assim que sempre nos enganamos, quando pretendemos mudar a ordem das coisas e obrigar a beber quem não tem sede!” (ou interesse e vontade! p.17)

“O problema essencial da nossa educação não é de modo algum o ‘conteúdo’, mas a preocupação essencial que devemos ter de fazer a criança sentir sede! Então a qualidade do conteúdo seria indiferente? Só é indiferente para os alunos, que na escola antiga, foram treinados a beber, sem sede, qualquer bebida!” (obrigar a decorar conteúdos que não os interessam - p.18)

“Não preparamos homens que aceitarão passivamente um conteúdo, mas cidadãos que, amanhã, saberão enfrentar a vida com eficiência e heroísmo e poderão exigir que corra para dentro do tanque d´água clara e pura da verdade”. (p.18)

“Não se obriga o cavalo que não tem sede a beber!” (p.18)

Com isto, é necessário fazer a criança sentir sede. Sede do saber e do conhecimento. E se obrigada, a criança pode até sentir aversão e se recusar a “aprender” determinado conteúdo, buscando sozinha uma outra “fonte”.

“Se o aluno não tem sede de conhecimentos, nem qualquer apetite pelo trabalho que lhe você lhe apresenta, também será trabalho perdido ‘enfiar-lhe’ nos ouvidos as demonstrações mais eloqüentes.”

“É lamentável qualquer método que pretenda fazer beber o cavalo que não está com sede. É bom qualquer método que abra o apetite de saber e estimule a poderosa necessidade do trabalho.” (p.19)

Talvez o “deixar vir” o conteúdo e os interesses, para então atuar com o repertório e necessidades que os alunos apresentam.

Freinet defende o trabalho com prazer. Aquele ao qual nos “dedicamos com entusiasmo, por ser nossa condição de vida, e a qual, como toda obra de vida, damo-nos completamente.” (p.23)

“A vida prepara-se pela vida.” (p.25)

O autor também se coloca como criança, onde conserva a impressão tão comum da juventude, sentindo e compreendendo de uma forma que, como criança, educa crianças.

“É como adulto-criança que descubro, através dos sistemas e métodos que tanto me fizeram sofrer, os erros de uma ciência que esqueceu e desconhece suas origens.” (p.27)

Freinet acredita que se o educador não voltar a “ser criança”, não entrará no reino encantado da pedagogia. Em vez de procurar esquecer a infância, acostumar-se a revivê-la e reavivá-la com os alunos, “procurando compreender as possíveis diferenças originadas pela diversidade de meios e pelo trágico dos acontecimentos que influenciam tão cruelmente a infância contemporânea.” (p.28)

Aceitar que a infância delas hoje equivale a nossa de ontem, nem melhor ou pior.

“Somos uma geração de copistas-copiadores, de repetidores condenados a registrar e a explicar o que dizem ou fazem homens que nos afirmam ser superiores e que, muitas vezes, só têm sobre nós o privilégio da antiguidade nessa arte de copiadores e de repetidores.” (p.31)

Freinet defende que a criança deve plantar a curiosidade e colher por conta própria, através da própria experiência. Que muitas vezes, os educadores tentam facilitar os conteúdos, sem considerar as dúvidas e questionamentos que a criança tem, muitas vezes descartados pelos adultos. A criança quer colher, conhecer a origem, não somente se satisfazer com o que está dado!

Ele diz que se quisermos crianças inteligentes, críticas e autônomas, devemos parar de colocá-las em moldes e devemos estimular sua curiosidade, audácia e criatividade. Devemos ficar felizes quando elas se desviam dos caminhos que propomos, pois é essa inquietação o combustível para o aprendizado.

Ele também critica, métodos que fazem a criança repetir algum exercício, quando realizado rápido demais. Professores julgam ter sido mal feito, só por terem sido feitos rápidos demais.

E ele também aconselha que “se valorize o mais humilde do mais humilde dos seus alunos!” (p.41)

Ele fala também da importância do desafio e da finalidade das atividades.

“A escola nunca é uma parada. É a estrada aberta para os horizontes que se devem conquistar.” Não prender-se aos problemas do passado, mas concentrar-se aos caminhos que apontam para o futuro! (p.47)

Ele critica a obrigação do uniforme. “Não pratique na era das camisas da Lacoste, a pedagogia da casaca!” (p.50)  E fala que ninguém pode vivenciar experiências no lugar do outro. É importante experimentar, como cair, tentar, quando se aprende a andar de bicicleta.

“Infeliz a educação a que pretende, pela explicação teórica, fazer crer aos indivíduos que podem ter acesso ao conhecimento pelo conhecimento e não pela experiência. Produziria apenas doentes do corpo e do espírito, falsos intelectuais inadaptados, homens incompletos e impotentes.” (p.53)
Freinet diz que quando reprimimos alunos que tendem a se desviar do caminho que planejamos, “nós os tornamos estúpidas porque reprimimos brutalmente todas as tentativas de emancipação”.

Ele aconselha que devemos conservar o “apetite natural” do aluno. Educarmos conforme suas necessidades e curiosidade.

Se extremamente controladas, as crianças perdem a capacidade de agir diante da vida. Tornam-se passivos e não conseguem procurar ou conquistar nada sozinhas.

“É necessária a aventura da vida!” (p.57)

Freinet aconselha ainda a “não se fingir de morto”. Questionar, inquietar-se, ser agente ativo da vida. E como educador, permitir essa abertura entre os alunos.

“A atmosfera de uma classe depende, sobretudo, do gênero e da qualidade do trabalho que se faz nela.” (p.67)

E o autor recomenda, aceitar as diferenças, que muitas vezes fica evidente em alunos julgados “deliqüentes” ou “indisciplinados”. “Aqueles que nunca pecaram, que lhes atire a primeira pedra!” (p.68)

Apesar de todos esses conselhos, ele diz que não se deve abandonar métodos antigos de trabalho, antes de encontrar métodos melhores para substituí-los.

E também comenta de alunos-Adriano, que são aqueles que não precisam de manual, instrução ou estágio de aprendizagem. Parecem ter extrema facilidade de aprendizado. (p.70)

Aconselha a não desencorajar os alunos “corredores”, que não tem tantas habilidades em sala de aula, mas se destacam em outras habilidades. Talvez justamente o que acontece na Oficina de Artes. Os alunos indisciplinados, costumam se disciplinar na Oficina de Artes.

Ele sugere banir métodos de interrogação. “Ninguém gosta de ser interrogado, nem os adultos, nem as crianças, porque o interrogado imediatamente se coloca em situação de inferioridade em face do interrogador, e porque o ser humano não suporta a sensação de inferioridade.” (p.79)

“Vamos ajudar a criança, manter nela o desejo e a necessidade do trabalho, deixar que ela seja a interrogar e a pedir conselhos, e arranjemos as coisas de maneira que ela faça bem o sulco, e triunfante, possa admirar o resultado do próprio esforço.” (p.80)

“A natureza é assim: ninguém gosta de obedecer passivamente.” “O adulto não é exceção. Existe, o indivíduo habituado ao rebanho, dobrado pela obediência, domesticado a ponto de ter perdido essa reação vital que é a dignidade. A criança, porém ainda é nova. Basta sentir que você quer orientá-la por um determinado caminho, que o seu movimento natural é escapar em sentido oposto.” (p. 82)

Freinet faz uma colocação importante. De que a “criança pode chegar ao topo da escada sem subir metodicamente todos os degraus”. Instintivamente pode encontrar um novo caminho de conhecer o saber. E diz que as escolas não necessariamente são esse lugar.

“Na origem de toda conquista está não o conhecimento, que só vem normalmente em função das necessidades da vida, mas a experiência, o exercício e o trabalho!” (p.92)

 “Existem escolas onde, há séculos, todos se esforçam por andar apoiado nas mãos. A aprendizagem é longa e laboriosa. Os que se recusam não têm tempo para ela ou são reconhecidos como incapazes, são excluídos para sempre do mundo que anda apoiado nas mãos.” Nestas escolas “acham essa postura, de andar com as mãos, uma maneira de se deslocar tão normais, que chegam a lamentar os pobres seres humanos que teimam – contra toda ciência, segundo dizem – em andar apoiado nos próprios pés!” (p.95 e 96)

“O mais delicado da nossa tarefa de inovadores não é treinar as crianças para deslancharem com tenacidade no sentido da vida, mas habituar os educadores a se manterem apoiados nos pés, segundo as leis do bom senso e da natureza.” (p.98)

“Até hoje, a Escola foi e continua sendo o Tempo onde a criança, depois de ter realizado alguns gestos rituais, entra na sala de aula na ponta dos pés para viver uma vida totalmente diferente da sua verdadeira vida, no respeito religioso pela palavra do professor e na submissão às ‘Escrituras’. Essa Escola-Templo não se preocupa em preparar a criança para a vida!” (p.102)

Freinet acredita que esta Escola-Templo abstrai a vida, e é “persuadida de que o conhecimento abstrato, a cultura intelectual, o culto das idéias e das palavras são o verdadeiro e definitivo de toda a educação.” (p.102)

“Longe de nós o pensamento que o livro, o raciocínio lógico e a palavra esclarecida sejam supérfluos ou inúteis. São a condição do progresso, mas deverão entrar em ação apenas quando a experiência houver lançado seus alicerces e enterrado suas raízes na vida individual e social.” “Experimentar e ajustar não só materiais brutos ou peças mais ou menos trabalhadas, mas elementos de criação e de vida.” (p.109)

“Transformar tecnicamente a Escola da saliva e da explicação em inteligente e flexível canteiro de obras, eis a tarefa urgente dos educadores.” (p.110)

“Desconfie da saliva. Com muita freqüência ela não é mais do que um meio da impotência e da ilusão!” (p.111)

“Raciocine, você insiste, sem perceber que todo raciocínio são e válido se apóia em dados e em elementos que só a experiência e a vida podem preparar e estabelecer. Repita, exercite a memória, recorde! Garantiram-lhe que a memória é o principal instrumento do conhecimento, e a repetição a chave da pedagogia. Você aprenderá à sua custa que a memória das palavras é só sobrecarga para o espírito e um embaraço para o comportamento da vida. Sem experiência, ela não é nada. É a parede que erguemos pedra por pedra, sem nos importarmos com os alicerces, e que será sempre incerta e vacilante.” (p.112)

“Aquele que trabalha, economiza palavras e aquele que fala muito, sempre economiza trabalho. Poupe sua saliva e organize o trabalho!” (p.112)

“Desça ao nível das crianças, para você jogar o jogo delas, ver como elas, reagir como mesmo ritmo. Arregace as mangas para trabalhar com as crianças. Deixe de dar ordens e castigar, atire-se ao trabalho com os alunos. Não tenha medo de sujar as mãos, de se machucar com uma martelada, de hesitar nos casos em que a criança mais viva domina a situação, de tatear, de se enganar, de recomeçar.” (p.114)

“Ainda estaríamos na pré-história se não tivessem levantado por toda parte e não fossem ainda inúmeros os insatisfeitos e os iluminados que, estendendo as mãos para o inacessível, vão tentando ultrapassar o que é, perscrutando a noite que os oprime. São suas as audácias que marcam as lentas fases do progresso, mesmo e sobretudo se eles forem as vítimas injustas. Não pense que na Escola, você deve imitar os mais velhos, empregar os seus métodos mesmo que bem conceituados na sua época, usar os manuais com que se declaravam satisfeitos e orgulhosos.” “Devemos permanecer sempre de atalaia, experimentar nossos passos, partir da tradição, apoiar-nos nela nos momentos difíceis, mas ultrapassar e abandonar os caminhos traçados, lançar pontes, cavar túneis, escalar encostas, alcançar cimos, para irmos sempre em busca de mais claridade e mais sol.” “Tire o chapéu para o passado! Tire o casaco para o futuro!” (p.116 e 117)

“É necessário ter experiência e conhecimentos, mas são necessários sobretudo amor e preocupação permanente de estar ao seu serviço, pois o êxito é a recompensa de um educador inteligente e devotado!” (p.118)

“Seja prudente com a novidade. Nunca a procure por ela mesma, mas pela melhoria que poderá proporcionar ao seu trabalho e a sua vida.” (p.119)

“Não seja nem o tradicionalista endurecido, nem o inovador caçador de aventuras. Procure técnicas práticas e flexíveis; desgaste-as conosco, na experiência coletiva; faça-as suas até marcá-las com a sua maneira de andar e com o seu temperamento.” (p.120)

“O homem que deixou de construir (aprender?) é um homem que a vida venceu e que só deseja a noite, contemplando o passado morto. Prepare gerações de construtores!” (p.123)

Freinet aconselha, mesmo sabendo que “os construtores estão sempre construindo, e haverá quem os acuse de desordem e de impotência.” (p.124)

O autor diz que não é preciso um teste especial para se conhecer o valor e o rendimento de um educador. “Se faz o trabalho com prazer e se interessa profundamente pela profissão” é certo que os educandos serão bem tratados. “A técnica virá depois, se ainda faltar e, enquanto isso, a solicitude permanente do educador saberá “atenuar as insuficiências profissionais”. (p.125)

“Seria necessário lembrar os pais e aos professores que um educador que já não tem gosto pelo trabalho é um escravo do ganha-pão e que um escravo não poderia preparar homens livres e ousados; que você não pode preparar os alunos para construírem, amanhã, o mundo dos seus sonhos, se você já não acredita nesta vida; que você não poderá lhes mostrar-lhes o caminho se permanecer sentado, cansado e desanimado, na encruzilhada dos caminhos.” (p.126)

“Conserve nas crianças essa alegria simples que sentimos ao seguir fora dos caminhos já muito pisados, ao nos ferir nos espinhos  e agarrar aos rochedos de onde se descobrem os profundos horizontes de luz; cultive nelas a embriaguez dos triunfos, sem no entanto correr o risco de se perder ou extraviar; mantenha-as em grupos harmoniosos, no seio dos quais possam sentir-se amparadas umas pelas outras e compartilhar a grande força que nos vem das nossas mãos unidas; mobilize-as ao mesmo tempo para fazer avançar cada vez mais os caminhos claros e livres que permitam a audácia renovadas das gerações que estão por vir.” (p.128)

“As crianças têm necessidade de pão, do pão do corpo e do pão do espírito, mas necessitam ainda mais do seu olhar, da sua voz, do seu pensamento e da sua promessa. Precisam sentir que encontraram, em você e na sua escola, a ressonância de falar com alguém que as escute, de escrever a alguém que as leia ou as compreenda, de produzir alguma coisa de útil e de belo que é a expressão de tudo o que trazem nelas de generoso e superior.” “A criança precisa de pão e rosas!” (p.129)

“Deixe a criança tatear, alongar os tentáculos, experimentar e cavar, inquirir e comparar, folhear livros e fichas, mergulhar a curiosidade nas profundezas caprichosas do conhecimento, numa busca, às vezes árdua, do alimento que lhe é substancial. Isso nem sempre se fará sem choro e ranger de dentes.” (p130)

“Você já notou como as crianças, em casa ou na escola, são ajuizadas e fáceis de suportar quando estão totalmente ocupadas numa atividade que as apaixona? O problema da disciplina já não se coloca – basta organizar o trabalho que a entusiasma.” “Assistimos a desordem acidental da oficina ainda não suficientemente organizada; mas os êxitos, de que nos orgulhamos, provam-nos que, em nossas classes, a prova de força foi ultrapassada. Passamos à disciplina democrática – aquela que prepara a criança para forjar a sociedade democrática que será como ela a fizer.” (p.136)

“Somos aprendizes, às vezes com pretensão de mestres e ocultando de bom grado, a nós mesmos, as nossas imperfeições e as nossas impotências. Somos todos aprendizes!” (p.138)

“É fazendo rodar, lado a lado, a carroça e o trator (as velhas e novas tecnologias e/ou métodos de ensino), que se avaliam verdadeiramente os progressos técnicos e humanos a serem explorados e reforçados.” (p.145)

“Sabemos discutir muito bem, no café ou na curva dos caminhos, quando nada nos apressa, o sol está claro e o rio murmura nos pés, mas quando se trata, numa reunião, de dizer verdades aos que criticamos e de tomar diante deles, a posição viril que tomamos entre nós, então já não há homens. Há somente ovelhas e criados!  E na saída, nós nos lamentamos!” (p.148)

“Talvez se você, educador, ajudasse os educandos a afirmar sua personalidade como desejaria ensinar-lhes ortografia e cálculo; se você os treinasse para salvaguardar a própria dignidade, com a mesma ciência pedagógica que emprega para os fazer obedecer; se você tivesse tanto cuidado em formar o homem como em educar o estudante, então talvez tivéssemos amanhã gerações capazes de se defender-se dos faladores e dos políticos que hoje nos dirigem.” (p.149)

“O educador não é um forjador de cadeias, mas um semeador de alimento e de claridade!” (p.151)